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sábado, maio 30, 2009

Coimbra - um pouco de história


Foi em 3 de Janeiro de 1935, às 15h e 24m, que a Torre de Santa Cruz foi demolida pois a sua queda abrupta, embora previsível, poderia ter posto em risco a população vizinha. O seu avançado estado de deterioração levou a que os bombeiros, de forma intencional e premeditada, inundassem a base da torre provocando a sua derrocada. Estas são imagens únicas deste acontecimento ocorrido há 72 anos e que mergulhou Coimbra em profunda consternação por ver desaparecer, de forma brusca, um dos seus símbolos. Desde miúdo ouvi várias vezes relatos deste facto com grande pormenor, já que o meu pai, na altura com 20 anos, assistiu, diríamos hoje em directo, à queda deste monumento.
Este momento ficou para sempre lembrado na letra de um fado de Coimbra:
O Mondego perdeu a majestade
O luar sobre si não mais se viu
E o famoso penedo da saudade
Tem saudades da torre que caiu

A velha academia está de luto
Nos olhos das tricanas não há luz
Corroída p'lo tempo longo e bruto
Caiu a Catedral de Santa Cruz

Além desta enorme estrutura foi também demolida a parte norte da Escola Brotero, hoje Jaime Cortesão. Para o local, deixado vazio, foi muito posteriormente colocada a Fonte Nova que estava perto do Mercado Municipal.
O que é que hoje ocupa o lugar deste prédio ?
Foi sede da Sociedade de Defesa e Propaganda de Coimbra, que tinha como missão defender o património paisagístico, cultural e arquitectónico da nossa cidade, e também da União Nacional, já que se vivia na época o esplendor do chamado Estado Novo.

O edifício, na foto, foi demolido na década de 40 tendo começado a construção daquele que ainda hoje ocupa aquele espaço, em 1948. Fica situado na junção da R. Olímpio Nicolau Fernandes com a R. da Sofia e chama-se
CAIXA GERAL DE DEPÓSITOS


Aproveitando o oportuno comentário do sinaleiro feito no post anterior, aqui fica o testemunho fotográfico de como era a Ínsua dos Bentos. Comprada pela Câmara Municipal em Abril de 1888, foi, desde o início do século passado, teatro da prática de várias modalidades desportivas. Uma das vítimas do desenvolvimento urbanístico foi o “Clube Tiro e Sport”( que ainda hoje existe perto da Cruz de Celas ), que deixou de poder ali realizar concursos hípicos de obstáculos, pois aqueles terrenos iriam dar lugar ao Parque da Cidade

O antigo canavial, onde hoje se situa o Parque Mondego, foi transformado em campo de futebol por volta de 1930. Muitas vezes os atletas tinham de carregar as balizas às costas, e quando o pontapé ultrapassava os limites do campo, tinham de ir buscar a bola, não à Sereia, mas ao rio Mondego.

Esta era uma das obras criadas por Bissaya Barreto a favor das crianças abandonadas e desprotegidas que eram vítimas de maus tratos. Foi ele que criou a “Carta da Criança” , algo que, na época, era pouco ou nada falado. Os 10 Direitos da Criança foram escritos em azulejos que, por sua vez, foram aplicados numa das fachadas da instituição e ainda hoje se podem observar na Maternidade Bissaya Barreto para onde foram transferidos.

Neste local, como todos sabem, está edificado o Teatro Gil Vicente e a sede da Associação Académica de Coimbra.

O fundo da Calçada ( Ruas Ferreira Borges e Visconde da Luz ), “ Rua faustosa dos mercadores ricos da última moda, das populações liberais, miradouro chão da palestra vespertina desenfastiada, corso limitado da ostentação sistemática" rua onde ainda se conversa enquanto se olha os passantes, ou onde se faz mais uma “piscina”, desemboca na Praça 8 de Maio, antiga Praça de Sansão.
Até ao século XIX este lugar público teve vários nomes populares; Terreiro de Santa Cruz, Sansão, Terreiro, Praça ou Largo de Sansão. E porquê ? Neste local encontrava-se o chafariz com o mesmo nome ( ver gravura, à esquerda ) mandado edificar por D. Afonso Martins, prior do Mosteiro. Este nome perdurou até 1874 altura em que mudou a nomenclatura para Praça 8 de Maio, em comemoração da entrada das tropas liberais na cidade em 1834. Aqui funcionou o primeiro Teatro Público de Coimbra.

Cerca de 1900 a Igreja de S. João das Donas foi transformada em estabelecimento comercial ; hoje é o Café Santa Cruz.

O COLISEU DE COIMBRA

Também era designado a Praça de Touros de Coimbra. Foi inaugurado no dia 26 de Julho de 1925 tendo custado 750 contos de reis e estava segura por 400 !!! Aí se realizaram grandes espectáculos, sessões cinematográficas na época de verão, festas desportivas. Grandes e importantes touradas nacionais e "garraiadas" estudantis tiveram aqui lugar. Dez anos depois ( 4/04/1935) foi consumido pelas chamas que, na sua voragem destruidora, apenas pouparam a cabina cinematográfica e a máquina de projecções. A última tourada que ocorreu , naquela que era a maior arena do país, foi a 17 de Julho de 1934 e teve uma assistência de 10000 pessoas. Nunca foi reconstruída. Mais tarde, no seu lugar surgiu o Portugal dos Pequenitos.

O Mondego, para além de ser um local sereno e aprazível, era também o ganha-pão de muitas famílias. No verão eram construídas azenhas temporárias no leito do rio. Contam os mais antigos que os moleiros, mais dotados fisicamente, chegavam a erguer o burro carregado de taleigos, para assim poder atravessar o rio.
Era sobretudo no Inverno que os barqueiros faziam a travessia de pessoas e mercadorias, pois o grande caudal do rio não possibilitava que tal trajecto, destinado a levar e trazer carqueja, lenha sal peixe roupa lavada e suja, se fizesse a pé. Descalço lá ia encaminhando o barco com uma varola aproveitando a corrente e quando já na cidade, aguardava nova travessia, calçava uns tamancos, não fosse por lá aparecer a autoridade.
Em 2 de Agosto de 1935, no leito do Rio Mondego, foi inaugurada a primeira praia artificial do País. Não foi fácil esta obra pois foi necessário conter a água e para isso houve necessidade de construir uma paliçada depois de ter sido retirada a areia do rio. Estava equipada com tudo o que hoje se vê nos modernos empreendimentos.


O sucesso foi de tal maneira tão grande, que nos anos seguintes foi criada uma escola de natação e aumentaram o número de barcos de recreio.Durante sete anos os conimbricenses desfrutaram de banhos apetecíveis nos Verões quentes de Coimbra nas águas do Mondego.Desde o seu encerramento, o rio teve a cidade voltada de costas para si, até ao aparecimento da actual toalha de água permanente.



Por enquanto, a recordar a navegabilidade do rio, temos um barco que, num curto percurso, nos leva entre o Parque e a Portela, e que carinhosamente apelidamos de “BASÓFIAS".

4 Comments:

At terça-feira, junho 02, 2009 5:34:00 da tarde, Blogger António Américo said...

Muito bem Sr. Cipriano. esta sabedoria toda de Historia é fruto do elexir da tasca?

 
At sexta-feira, junho 05, 2009 2:20:00 da tarde, Anonymous Anónimo said...

Excelente artigo Sergio

 
At sexta-feira, junho 05, 2009 7:18:00 da tarde, Blogger Manuela Curado said...

Ora triste, ora encantada... com tudo o que li e que vi.
Este, foi um roteiro de pesadelo e sonho, pela cidade antiga.

 
At terça-feira, setembro 22, 2009 9:41:00 da manhã, Anonymous Anónimo said...

E para quem quer saber mais sobre Coimbra antiga pode visitar o Centro de Documentação Bissaya Barreto http://www.fbb.pt/galeria_historia.htm

 

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